A cirurgia começa antes do centro cirúrgico: a inovação de Tauanni Silva na formação de cirurgiões oftalmológicos

Por: Pietra Iris De Lucca – Da criação de simuladores cirúrgicos de alta fidelidade à aplicação de inteligência artificial, a trajetória da oftalmologista e pesquisadora brasileira conecta ciência, empreendedorismo e novas formas de compreender como um cirurgião desenvolve habilidade técnica. Uma parte decisiva da segurança cirúrgica é construída antes de o paciente entrar na sala […]

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Por: Pietra Iris De Lucca – Da criação de simuladores cirúrgicos de alta fidelidade à aplicação de inteligência artificial, a trajetória da oftalmologista e pesquisadora brasileira conecta ciência, empreendedorismo e novas formas de compreender como um cirurgião desenvolve habilidade técnica.

Uma parte decisiva da segurança cirúrgica é construída antes de o paciente entrar na sala de cirurgia. É durante a formação e o aperfeiçoamento do profissional que se desenvolvem a precisão dos movimentos, a familiaridade com os instrumentos e a capacidade de tomar decisões diante de situações complexas.

Em procedimentos delicados, como a cirurgia oftalmológica, essa preparação exige repetição, treinamento técnico e avaliação cuidadosa do desempenho. Foi a partir desse desafio que a oftalmologista, pesquisadora e empreendedora brasileira Tauanni Candido Alves e Silva passou a desenvolver soluções voltadas à formação cirúrgica.

Tauanni concebeu os primeiros modelos que deram origem à ORBITAU a partir de necessidades identificadas durante sua própria trajetória de formação médica. A proposta era transformar dificuldades observadas na prática em uma tecnologia que permitisse ao cirurgião repetir manobras, testar técnicas e desenvolver habilidades em um ambiente controlado antes de aplicá-las em pacientes.

O resultado foi uma plataforma baseada em modelos sintéticos de olhos de alta fidelidade, desenvolvidos para reproduzir características anatômicas e diferentes etapas da cirurgia oftalmológica.

Mais do que criar um simulador, o trabalho passou a abordar uma questão mais ampla: como tornar o processo de aprendizagem cirúrgica mais estruturado, repetível e, posteriormente, mensurável?

Da experiência clínica ao desenvolvimento tecnológico

O treinamento cirúrgico envolve muito mais do que conhecer a sequência de uma operação. O profissional precisa coordenar movimentos, interpretar respostas dos tecidos, manejar instrumentos e tomar decisões em condições que exigem precisão.

Na cirurgia de catarata, por exemplo, etapas como a capsulorrexe, a fragmentação do núcleo e a manipulação de estruturas intraoculares demandam controle técnico e familiaridade com diferentes situações cirúrgicas.

A simulação permite que parte dessa curva de aprendizado aconteça fora do paciente. Em vez de depender exclusivamente das primeiras experiências em cirurgias reais, o profissional pode repetir determinadas etapas, reconhecer dificuldades e desenvolver maior familiaridade com os instrumentos em condições controladas.

Na ORBITAU, essa proposta se materializou em modelos físicos que permitem contato direto com instrumentos cirúrgicos e execução de manobras em estruturas sintéticas desenvolvidas especificamente para treinamento.

O desenvolvimento dos simuladores também passou a ser objeto de investigação científica. Estudos com cirurgiões e residentes têm avaliado aspectos como realismo, aplicabilidade e desempenho dos modelos em diferentes situações de treinamento, contribuindo para a produção de pesquisas e comparações com outros métodos de simulação.

A contribuição de Tauanni, portanto, não se limita à criação de um produto. Ela se relaciona à construção de uma linha de trabalho que conecta uma necessidade observada na prática cirúrgica ao desenvolvimento tecnológico e à avaliação científica de novas ferramentas de ensino.

Uma tecnologia que ultrapassou o ambiente em que foi criada

Com o avanço dos modelos, a ORBITAU ampliou sua atuação para além do Brasil. Atualmente, suas soluções estão presentes comercialmente em mais de 17 países, segundo informações da empresa.

A expansão internacional trouxe uma dimensão adicional ao desenvolvimento da tecnologia. Diferentes instituições, equipamentos, técnicas e níveis de experiência cirúrgica passaram a integrar os contextos em que os modelos são utilizados.

Essa diversidade também influencia o aperfeiçoamento dos simuladores, que precisam responder a demandas distintas de treinamento e reproduzir etapas cada vez mais específicas da cirurgia oftalmológica.

Paralelamente, o trabalho desenvolvido por Tauanni passou a receber reconhecimento em ambientes científicos internacionais. Em 2024, o filme científico “Hard Times, Hard Work”, do qual foi autora, recebeu a distinção Runner Up no 42º ASCRS Film Festival, promovido pela American Society of Cataract and Refractive Surgery, uma das principais sociedades internacionais dedicadas à cirurgia de catarata e refrativa.

O reconhecimento ocorreu em uma competição internacional voltada à apresentação de inovação, técnica cirúrgica e conteúdo educacional em oftalmologia.

Da possibilidade de treinar à possibilidade de medir

À medida que a simulação se tornou mais sofisticada, surgiu um novo problema.

Permitir que um cirurgião pratique é uma etapa importante. Mas como determinar, de maneira objetiva, se ele realmente está evoluindo?

Tradicionalmente, grande parte da avaliação da habilidade cirúrgica depende da observação do professor ou supervisor. Essa experiência continua sendo essencial, mas pode variar de acordo com quem avalia, com o procedimento e com os critérios utilizados.

Foi dessa questão que surgiu uma nova frente do trabalho de Tauanni: a Orbitau AI.

A iniciativa incorpora inteligência artificial à análise de cirurgias realizadas em ambiente simulado, com o objetivo de transformar aspectos do desempenho técnico em informações mensuráveis.

Tempo de execução, precisão dos movimentos, consistência técnica e desempenho em etapas específicas são exemplos de elementos que podem ser estudados de forma estruturada.

A mudança é conceitual. O simulador deixa de ser apenas um ambiente em que o profissional repete uma técnica e passa também a funcionar como uma plataforma capaz de produzir dados sobre o próprio processo de aquisição de habilidade.

Isso permite investigar não apenas se o profissional conseguiu concluir determinada etapa, mas também como ele a executou e como seu desempenho evolui ao longo do treinamento.

Pesquisa internacional e desenvolvimento científico

Essa evolução tecnológica acontece em paralelo à atuação acadêmica de Tauanni.

Atualmente, ela é Research Fellow no Massachusetts Eye and Ear, hospital afiliado à Harvard Medical School, onde participa de atividades de pesquisa relacionadas às áreas de córnea, catarata e cirurgia refrativa.

A experiência aproxima sua atuação clínica e empreendedora de um ambiente de investigação científica internacional e amplia as possibilidades de avaliação das tecnologias desenvolvidas.

O trabalho com simulação cirúrgica também já resultou em produção científica envolvendo avaliação de modelos artificiais de treinamento, além de projetos comparativos com diferentes métodos utilizados na formação de cirurgiões oftalmológicos.

Essa aproximação entre prática, pesquisa e tecnologia é particularmente importante em um campo no qual a percepção de realismo, sozinha, não é suficiente. Para que novas ferramentas sejam incorporadas de maneira consistente à formação médica, é necessário investigar sua validade, sua confiabilidade e sua capacidade de contribuir efetivamente para o desenvolvimento de competências.

Quando o treinamento passa a produzir dados

A incorporação da inteligência artificial adiciona uma nova camada a esse processo.

Se a simulação física permite praticar sem colocar o paciente no centro da curva inicial de aprendizado, a análise computacional pode contribuir para compreender com maior precisão como essa habilidade é construída.

A proposta não é substituir a supervisão do professor, mas acrescentar informações objetivas ao processo de avaliação.

Em vez de depender apenas de impressões como “melhorou” ou “precisa repetir”, torna-se possível acompanhar indicadores específicos e observar padrões de evolução ao longo do treinamento.

Esse tipo de abordagem pode abrir espaço para discussões mais amplas sobre padronização de competências, comparação entre métodos de ensino e definição de critérios mais objetivos para o desenvolvimento técnico.

Ainda assim, a incorporação dessas ferramentas à formação médica exige rigor. Melhor desempenho em um ambiente simulado não significa, automaticamente, menor índice de complicações em cirurgias reais. Demonstrar essa relação exige estudos apropriados e acompanhamento científico.

Essa distinção é fundamental para que a inovação avance com responsabilidade.

Uma nova forma de olhar para a curva de aprendizado

A trajetória de Tauanni Candido Alves e Silva acompanha uma mudança maior na educação cirúrgica.

Durante muito tempo, a curva de aprendizado foi entendida principalmente como o resultado da experiência acumulada ao longo de sucessivos procedimentos. A evolução das tecnologias de simulação começa a permitir que parte desse processo seja observada, repetida e analisada antes que o profissional chegue ao paciente.

O trabalho desenvolvido por Tauanni parte de uma ideia simples, mas com implicações amplas: antes de medir apenas o resultado de uma cirurgia, também é possível aperfeiçoar e estudar a forma como o cirurgião aprende a realizá-la.

Ao aproximar simulação física, pesquisa científica e inteligência artificial, sua atuação aponta para um modelo de formação em que prática e avaliação deixam de depender exclusivamente da experiência acumulada e passam também a ser acompanhadas por dados.

Nesse cenário, a tecnologia não substitui o professor, o treinamento clínico ou a experiência cirúrgica. Ela amplia as ferramentas disponíveis para que essa experiência seja construída.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das transformações mais relevantes para o futuro da formação cirúrgica: fazer com que uma parte maior da curva de aprendizado aconteça antes que o paciente precise fazer parte dela.